Cruz Negra Anarquista - Almada - Apartado 40 / 2801-801 Almada / Portugal - cna_almada@yahoo.com

 

Constantino Cavalleri

Introdução à edição castelhana

Recebemos da mão do companheiro Claudio Lavazza esta interessante tradução, que corrigimos e decidimos editar de forma a começar uma série de edições destinadas a actualizar um debate sério e afastado das polémicas, rumores, "más ondas", etc., que há sempre em torno das lutas anti-repressivas.

Pensamos que o texto do companheiro Constantino, lido com a agudeza necessária, trará claridade ao "buraco negro" em que caiu a estratégia de luta contra as prisões, desde que foi iniciada em Outubro de 1999.

Um "buraco negro" que é sinónimo de desleixo na hora de incidir em certos aspectos das lutas, para além da também necessária acção destrutiva: a SOLIDARIEDADE entendida como um compromisso recíproco de seriedade e perseverança para com os companheiros que estão ameaçados ou nas garras da repressão; ou, por exemplo, a conquista dos meios através dos quais a acção destrutiva passe a ter uma eficácia, uma contundência que faça com que a pressão para alcançar os objectivos marcados suba de tom.

Hoje, olhando para trás, constatamos que reflectimos muito sobre as nossas próprias carências, limites e sucessos, os quais também foram uma realidade.
Constatámos a inutilidade de certas propostas baseadas na "espontaneidade" e no aparente e esquizofrénico caminho em proveito da legitimidade do discurso mais genuinamente subversivo; sofremos, e não é exagerada a expressão, a carência de um projecto a médio prazo, projecto este que nos faria ultrapassar os limites da sobrevivência face à "voragem" repressiva, isto é, o combate diário para evitar sermos caçados como se fôssemos uma peste pelas "forças da ordem". E porque não, entre os êxitos, o de nos termos encontrado a nós mesmos como firme realidade em profunda subversão com esta merda existente e o "gozo" de "viver" a "vida" como nos dita o nosso coração e não como ditam os imperativos do Estado-capital europeu e multinacional.

Este foi o início de um período de reflexão e acção destinado a, entre outras coisas, não voltar a cair na estupidez infantil do passado, no que às relações entre companheiros se refere, e neste sentido, instigamos a certos "companheiros" (à falta de melhor palavra) a que abandonem a estratégia de "agredir e derrubar" contra outros companheiros que, para além disso, estão a sofrer na primeira pessoa as realidades mais duras relativas à repressão do Estado.

Também Cipriano Mera, na sua época, e como tantos outros, pelo único motivo de discordar em alguns pontos da Santa Igreja da Acracia, foi excomungado e condenado ao ostracismo... Hoje a história repete-se, seja tanto no sector radical da Santa Inquisição como no seu sector moderado: as práticas estalinistas do rumor, da calúnia e das acusações falsas sobrevivem... Que a história não se repita de novo.
Nas próximas edições, já em estado avançado de preparação, aprofundaremos, através de escritos nossos e de diversas traduções, a crítica e a acção que estamos a desenvolver contra o Poder e a Autoridade em todas as suas formas.

Até que a repressão nos apanhe.

Agosto de 2001
Grupo "Granados e Delgado"


Contribuição para a luta contra a prisão

Estes escritos foram elaborados após a circulação no seio do movimento do documento "CONTRIBUIÇÃO PARA O DEBATE I.A.I. E ALGUNS ESCLARECIMENTOS PARA @S COMPANHEIR@S", com a intenção de continuar com o debate iniciado por este último documento e revitalizar a luta que se está a levar a cabo, abrindo possibilidades concretas para o seu crescimento a fim de reforçá-la.

Acrescento também que a nossa contribuição será socializada no primeiro encontro da Internacional Anti-autoritária Insurreccionalista" (I.A.I.) para avaliar a possibilidade concreta de um interesse comum entre as realidades que participaram, referente a uma intervenção sintonizada entre grupos e indivíduos para alargar a luta e radicalizá-la.

É melhor que @s companheir@s saibam que as considerações e propostas adiantadas não são fruto de elaborações abstractas ou de descrições lógicas de trajectos imaginados no cérebro de alguém; na realidade, por detrás delas há uma experiência de muitos anos, de participação activa no seio do "Comité de solidariedade com o proletariado sardo preso e deportado", entidade que foi das primeiras a pôr a nu de forma sistemática as montagens político-judiciais que logo vieram dar lugar a detenções e sucessivos julgamentos requeridos pelos magistrados do Ministério Público, Marini e Ionta.


A LUTA CONTRA O FIES

Na perspectiva das lutas passadas dos presos FIES (ficheiros de internos de especial seguimento) e para sermos mais incisivos, são necessárias algumas considerações que ilustrem e fundamentem a luta no nível actual onde se encontra o movimento na sua complexidade (há que ter em conta as críticas e apreciações expressas por dois companheiros presos, em cartas que circularam pelo movimento e que eu tive a ocasião de ler).
Dou como garantido que @s companheir@s conhecem o desenvolvimento da luta que surgiu no ano 2000 nas prisões do estado espanhol, levada a cabo dentro e fora das prisões, que tiveram um feed-back no plano internacional. Conseguiram pelo menos sensibilizar a opinião pública sobre este tipo de prisão e os momentos desumanos e sufocantes que a caracterizam.

Apesar disto, demos conta, para quê escondê-lo, que a luta tem limites próprios e que para além disso, manifesta algumas coisas que não coincidem com a vontade dos presos decididos a luta até à greve de fome por tempo indefinido. O movimento fora das prisões parece ter afectado a força criativa e a energia necessária para poder unir estas duas relações de forças de forma a obrigar o estado a cumprir os objectivos que se propõem.
Se os meus actuais conhecimentos e considerações reflectem pelo menos alguns dos elementos que caracterizam a luta e a condição do movimento neste momento, longe de ser vã, penso que tem razões suficientes e perspectivas concretas para continuar mais forte e preparado do que antes. A condição, obviamente, de que tod@s @s companheir@s realmente interessad@s na luta concretizem a sua vontade e seriedade penso que é absolutamente indispensável.

Também é necessário, em relação a esta contribuição, acrescentar outros aspectos que se dão por adquiridos mas que não o são, pois dão lugar a equívocos, mal entendidos, falsas interpretações, e sabe-se lá mais o quê. Por isso é importante sermos precis@s, pelo menos neste contexto, para clarificar o que é exposto e as propostas que nascem.

Peço um pouco de paciência e atenção aos companheir@s e peço desculpa por repetições, detalhes, explicações longas e outras coisas que possam parecer supérfluas. A intenção não é de aborrecer-vos, mas sim de evitar mal entendidos e frivolidades, para além de animar e aprofundar a análise.


A SOLIDARIEDADE

A solidariedade no âmbito revolucionário é o momento em que, para além das diferenças existentes, as entidades revolucionárias - indivíduos ou colectivos - manifestam-se e reforçam-se entre elas reconhecendo reciprocamente a validade de cada uma.

Tal manifestação de solidariedade pode ser expressa de mil maneiras: da contribuição económica para financiar as actividades levadas a cabo, à correspondência com quem é golpeado pela repressão, dos actos esporádicos de sabotagem, à intervenção na praça pública. Estas foram algumas das maneiras de fazer sentir a solidariedade com @s pres@s em luta que se levaram a cabo, algumas com êxito apesar das carências e dos limites que surgiram. No entanto, a manifestação de solidariedade mais efectiva é a de tomar a luta em toda a sua complexidade, alargando-a no social e também no espaço, a fim de aumentar as frentes da própria luta, dentro e fora das prisões, sem por isso, impedir ou forçar quem acredita que deve actuar segundo os seus próprios métodos ou sensibilidade.


A LUTA COMO ATAQUE

Quanto a mim, entendo a luta em todos os seus aspectos como ataque ao domínio. No caso das lutas contra prisão, entendo a luta como ataque ao poder do estado-capital para lhe impor a abolição do regime de prisão especial (isolamento), o fim da dispersão d@s pres@s e a libertação d@s pres@s com doenças incuráveis.

O conteúdo específico da luta contra a prisão, obviamente, não impede o objectivo que nos incita à luta: a destruição das prisões. No entanto, esta perspectiva que anima tod@s @s anarquistas e anti-autoritári@s, não é a perspectiva em que acreditam tod@s @s pres@s, nem todos os seus familiares, nem tod@s @s que, por uma motivação qualquer, possam simpatizar e participar nesta luta.

Por isso, é possível estarmos todos juntos, se pelo menos houver alguns elementos da luta que, metodologicamente, a caracterizem como espaço de interesse comum, e sobre a qual estamos dispost@s a dar as nossas energias. Um destes elementos é precisamente entender a luta como ataque. O conceito de ataque, penso que estará claro para tod@s, não expressa exclusivamente aquela prática que no imediato produz destruição ou danos materiais visíveis, acções "espectaculares" embora esporádicas.

Por ataque entendo qualquer manifestação concreta de corte com compromissos e mediações com o poder que se combate.

Dentro de uma óptica de luta isto é muito importante, porque põe em evidência que uma actuação em perspectiva liga toda uma série de práticas, de acções, de manifestações em que uma lógica se torna evidente no conjunto da intervenção; mesmo se os seus aspectos particulares pudessem não resultar no imediato como ataque.


UMA LUTA ESPECÍFICA

A luta contra o F.I.E.S. é uma luta que pretende alcançar objectivos específicos que são parciais. No entanto, a nossa perspectiva é e será a destruição das prisões e da sociedade que as engendra.
Deste modo, queremos catalizar o interesse e a participação de grupos mais ou menos amplos de presos e de pessoas desde que concordem com os objectivos que propomos.
Esta parte é muito importante e deve ter-se sempre em conta a fim de evitar possíveis rupturas, por parte de quem está em luta, por motivos ideológicos.


RUPTURAS, DIFERENÇAS, DESAGREGAÇÕES

Um daqueles aparentes pontos de debilidade do movimento anarquista e anti-autoritário em geral, que se manifesta também na luta contra o FIES, é devido à desagregação existente entre diferentes realidades, sejam individuais ou colectivas. Seja por rupturas no plano das relações pessoais ou por diferenças de sensibilidade ou de maneiras de lutar. Creio que estas diferenças, desde que não causem uma competição para estabelecer uma inútil graduação de quem é mais anarquista, não apenas são superáveis como são extremamente positivas.

Para não cair numa simples petição de princípio, a positividade das diferenças tem de manifestar-se como uma riqueza do movimento; e a única maneira que posso conceber, é a de criar uma metodologia de relação que na luta e pela luta produza uma ataque concêntrico e sintonizado de todas as forças do jogo. Não afirmo nem a necessidade de "recompor" rupturas passadas, nem a necessidade de colaborar lado a lado com quem não há afinidade. Esta lógica pacificadora de "abracemo-n@s a tod@s" não me interessa para nada. Defendo que é possível no meio de rupturas, fracturas e diferenças - obviamente dentro da prática do ataque entendido como expliquei acima; ou seja, na desordem da luta - dar corpo a um ataque conjunto que tenha uma frente unitária que cerque o estado-capital por todos os lados, provocando a energia e a potência necessária para, pelo menos, impor os objectivos predefinidos das lutas que se estão a levar a cabo.

Obviamente, tudo isto depende em grande medida da seriedade de tod@s nós, para além claro, do método usado.


O ALARGAMENTO DA LUTA

Tendo o ponto de partida das lutas objectivos específicos (fim do FIES, da dispersão dos presos e libertação dos presos com doenças incuráveis) não é certo que o inimigo que se ataca se encarne nas estruturas e instituições específicas aplicadas às prisões. As instituições prisionais são apenas uma parte, um aspecto da manifestação real do estado-capital, cuja constituição depende da inter-relação entre cada uma das suas partes: das instituições político-militares-judiciais, às de controlo e manipulação da informação. Dos centros de produção e distribuição de mercadorias às sedes do capital financeiro.
Esta complexidade de inter-relações e estruturas é o inimigo real, portanto, a nossa luta não pode limitar-se a atacar um sector, um aspecto ou um momento particular.

Do mesmo modo, os três objectivos que temos na luta contra o FIES são válidos para outras situações diferentes que superam as fronteiras do estado espanhol. Por exemplo em França, na Sardenha, na Alemanha, Itália, etc... aqueles mesmos objectivos poderiam produzir uma transformação e interessar @s pres@s e também todas as outras pessoas sensíveis ao problema. A luta não pode dirigir-se apenas aos pres@s e ao movimento existente no território espanhol; até porque o estado espanhol não é mais responsável do que outros estados com quem se inter-relaciona e de quem representa apenas aspectos específicos cujo objectivo é o de controlar um determinado território para que a exploração e a ganância possam actuar com as garantias necessárias para a estabilidade social.

Se a isto acrescentarmos o facto - espero que aceite por tod@s - de que a solidariedade mais produtiva em relação aos pres@s e à luta que se está a levar a cabo, é a de fazer a luta pessoal, alargando a mesma ao sítio onde vivemos, pode-se concluir que o alargamento da luta, seja no plano territorial ou na individualização do inimigo, é um momento imprescindível que nos implica a tod@s directamente.

Trata-se apenas de dar (ou pelo menos tentar dar) continuidade e sintonização à luta para que esta seja mais incisiva.


LUTA E REPRESSÃO

A repressão não existe num momento concreto, mas sim numa subparte da existência do poder em cada um dos seus momentos. A repressão manifesta-se de mil maneiras, tem mil caras e no momento actual não exclui nenhum dos aspectos da existência. A repressão pode actuar quase sem perturbar, porque o estado-capital perpetua-se numa situação social se consentimento generalizado. O regime democrático actual, essencialmente criado e sustentado (directa ou indirectamente) pelo consentimento generalizado ou pela ausência de movimentos claramente dissidentes ou radicais, não admite situações de choque generalizado porque isto significaria reconhecer a inexistência real dos alicerces sobre os quais se sustém e reproduz.

Por isso, reserva-se uma atenção especial para aqueles movimentos que, saindo do próprio controlo e das vias esterilizantes dos protestos ordenados e manipulados dos órgãos "correctos", arriscam-se, desta forma, a representar no contexto social, os condicionamentos sobre aqueles a quem poderiam despertar a atenção e a disponibilidade para a acção mais ou menos ampla da parte das pessoas excluídas dos modelos vigentes que existem.

Daí a tentativa de criminalizar @s companheir@s, grupos revolucionários e rebeldes sociais, tornando-os pára-raios virtuais e negando a existência de manifestações de dissensões nos estratos sociais.

Se a criminalização de companheir@s e rebeldes tem esta função e acontece desta maneira, é evidente que a luta que fazemos não se pode desligar do contexto social, desses estratos de pessoas excluídas ou não, que participando nesta luta criam preocupações para o poder, abrindo perspectivas reais insurreccionais que estão radicadas nas necessidades das classes excluídas. Isto significa que a luta não é só nossa, é antes, uma luta de tod@s @s que participam nela, de quem a faz sua.

Quanto mais a luta se tende a alargar no social, tanto mais dura será a repressão e as tentativas de repressão, para além das manipulações directas para se cometerem barbarismos e separar os objectivos finais das componentes radicais dos estratos sociais que empreendem a luta.

Seria um grave erro ajudar o estado-capital na sua fundamental acção de defesa, sem nos preocuparmos em agir e dar estímulos correctos e metodológicos para que a luta possa progredir nos termos apropriados ao ataque. Progredir também sem a nossa presença e não obstante as operações repressivas que de vez em quando nos golpeiam. É indispensável expor os jogos e as finalidades do poder e colocar em evidência que o objectivo do estado-capital não é a detenção em si d@s revolucionári@s e rebeldes sociais, mas sim pôr fim ou erradicar a própria luta.

A detenção da companheira e do companheiro de Madrid, juntamente com ordem de detenção do outro companheiro, a sua libertação de seguida e a posterior detenção de um dos companheiros, com tudo o que isso implicou em termos de manipulação mediática, tem a sua raiz exactamente nesta estratégia própria do poder constituído. Não é por acaso que o conteúdo das mensagens mediáticas se concentra exclusivamente sobre a transposição da luta dos seus termos reais até aos criminalizantes e com isto pretende-se no fundo separar a forma de actuar d@s companheir@s e rebeldes sociais dos estratos sociais que se solidarizaram e participaram pessoalmente na luta.

Pelo menos uma parte da nossa futura actividade deve passar por manter e alargar no campo social, nas manifestações de cada lugar, nas assembleias públicas e nos nossos instrumentos editoriais, aquelas contribuições e cumplicidades com as camadas sociais interessadas e participantes na luta, que contribuem desta forma para que a estabilidade do sistema seja posta em perigo.

A extensão da luta entendida assim dá-nos uma perspectiva bastante diferente da actual. Para estimular a luta já não são necessários unicamente os companheir@s e rebeldes sociais do solo ibérico, mas também tod@s nós, cada um na sua terra.

E fazer frente aos problemas relacionados com a luta e que emergem da mesma - o estancamento que se manifesta, os limites que já conhecemos... -, já não é algo exclusivo do movimento ibérico, não nos comportemos só como observadores. É desta perspectiva, na qual nos vemos tod@s directamente implicad@s, que surge outro elemento importante, ou seja, que da extensão da luta sairão reforçadas as situações específicas e também as mais débeis (porque são numericamente inconsistentes ou porque atravessam condições de particular carência organizativa ou de cansaço...). A partir da extensão a diferentes realidades territoriais e a diferentes movimentos, a luta pode ganhar uma continuidade no tempo e projectar-se na prática como indefinida.


A QUESTÃO ORGANIZATIVA

Embora a perspectiva da extensão da luta resolva algumas problemáticas e nos responsabilize na primeira pessoa por todas as situações do movimento, abre por outro lado uma questão organizativa.

É evidente que a questão se coloca unicamente àqueles que vêem na organização um instrumento, um meio válido para reforçar a luta. Neste sentido, o problema é exclusivamente de método, no que diz respeito às relações entre companheir@s e às coisas necessárias para a luta, salvaguardando e, se possível, enriquecendo a autonomia de tod@s e dotando-@s de meios para ampliar a sua possibilidade de acção.

Trata-se então de pôr em pé possibilidades organizativas, onde tod@s @s que participam na luta tenham a ocasião de trocar experiências, de socializar projectos e perspectivas, de conhecer situações e iniciar relações que cada um continuará depois por sua conta.

A informalidade que muit@s de nós já praticamos em "pequena" escala e que a proposta da IAI estimula a praticar em grande escala, cuja possibilidade é sublinhada na "Contribuição para o debate IAI e alguns esclarecimentos aos companheir@s" apresenta-se no global ainda que fazendo especial referência à luta contra o FIES.

A continuidade da luta, seja num plano territorial ou temporal, produz uma continuidade de relações, de intercâmbio de experiências entre todas as realidades participantes na luta. Esta continuidade é obtida parcialmente através do contacto directo entre situações de movimentos: aqueles que já têm relações e conhecimentos e que desenvolveram um certo grau de afinidade ou confiança. E as outras realidades, aquelas novas que se aproximam da luta: aquelas que também, conhecendo as respectivas existências não têm relações por mil motivos? E aquelas que por dificuldades financeiras não podem contactar com as demais no imediatismo das necessidades impostas pela luta? Não podemos esquecer que as cartas de dois companheiros presos FIES postas a circular no seio do movimento, fazem referência exactamente às carências que se manifestaram na luta, em boa parte por motivações organizativas e metodológicas: não devemos crer que as problemáticas relativas ao "mau ambiente" entre indivíduos e grupos, a fracturas entre diferentes realidades, se resolvam por si próprias e sem trazer influências negativas para a luta. Por isto temos que encontrar soluções possíveis agora mesmo.

Eu creio que é positivo superar o "impasse" organizativo através da própria informalidade das relações, e a única forma que posso conceber é a de dar vida a encontros periódicos de todo informais quanto ao seu funcionamento, nos quais a assembleia d@s participantes não seja deliberativa para nada, mas que seja exclusivamente um momento de socialização das experiências, de informações, de projectos, de tensões, de troca de perspectivas, de debate, de conhecimento da luta específica.

Estas ocasiões de encontros gerais poderão ser por sua vez lugares adequados para alargar conhecimento, relações, afinidades, além de serem lugares de possíveis intercâmbios de meios, instrumentos, metodologias, capacidades e também de natureza económica e financeira..

Outro aspecto é que estes momentos de encontros gerais excluem funções intermediárias, ou seja, aquelas tarefas frequentemente atribuídas a grupos e companheir@s que possuem contactos directos com aquelas realidades com as quais não queremos relacionar-nos. As socializações que se criam no âmbito da assembleia geral, aquando destes encontros, dizem respeito a tod@s @s presentes e cada um no final fará as suas escolhas mais adequadas. Não se trata de solucionar as rupturas que se deram mas de reduzir as suas consequências negativas.


A QUESTÃO REPRESSIVA

Tornou-se evidente, em muitos locais, que estes encontros generalizados, juntamente com a evidente positividade que criam, em geral e por lutas específicas, servem de "monitor" em ocasiões em que as forças e as estruturas do poder, no cumprimento da sua tarefa repressiva, podem, de forma sistemática, "fichar" tod@s @s participantes.

Esta observação considero-a séria e admito que não a tenha tido em conta, talvez porque dei como adquiridas algumas coisas.

Nós não somos a vanguarda de ninguém, senão de nós mesm@s. Muito pelo contrário, a metodologia que explicamos estimula em todos os sentidos a negar qualquer forma de vanguardismo, delegação e representatividade. Desta forma de ver as coisas, a nossa participação nas lutas sociais é um estímulo directo, concreto, à acção directa, à autogestão das lutas, à autonomia total de tod@s @s que fazem sua a luta.

O facto de sermos insurreccionalistas clarifica também a nossa forma de actuar, o estímulo que damos a partir das lutas específicas em função da insurreição generalizada.

Se tivéssemos possuído a força para concretizar uma insurreição que tão só pudesse ter tido potencialmente a capacidade de destruir o actual contexto social, não estaríamos aqui a discutir e teríamo-nos dedicado a outras coisas.

Se possuíssemos esta força e não a tivéssemos concretizado em forma de insurreição seríamos imbecis. E como não creio que sejamos imbecis e não me parece que estejamos num contexto insurreccional, é evidente que não possuímos essa força.

Isto significa que temos de agir, com a metodologia insurreccionalista, assim como agimos para levar adiante diariamente as lutas sociais em que participamos. A nossa actividade face às lutas sociais é evidente. Manifestamo-la em praças, ruas e em todas as ocasiões em que a população ou parte dela se expressa sob a forma de dissidência e luta.

É verdade que esses estímulos não os damos de forma legal, mas é óbvio que se conduzir um carro e não possuir carta tentarei que os "geninhos" não me encontrem, pois sei que de seguida serei preso.

Num contexto social baseado no consenso generalizado, real ou virtual não tem importância, a nossa forma pública de actuar para incidir no social (de forma limpa, sem erros) dá um medo terrível ao poder precisamente porque os nossos estímulos não são de natureza vanguardista e tampouco estão desligados ou distantes do senso comum e das suas possibilidades de compreensão.

É por isso que a repressão do estado-capital tem por objectivo separar e separar-nos dos contextos de lutas sociais, criminalizando-nos e às nossas acções ou dando a entender que algumas acções são justas (quando esterilizadas por mecanismos legais de reivindicação) ou injustas (se recusamos a prática burocrático-legal dos anestesistas sociais e institucionais).

É por esta razão, creio, que o desafio do poder actual do estado-capital tem de se dar principalmente no plano social, com a nossa manifesta participação nas lutas, nos protestos, nos ataques espontâneos.

Neste contexto, tem razão de ser a metodologia da organização informal, tanto a um nível amplo como a um nível específico, apesar de o estado-capital nos empurrar na direcção da clandestinidade insistimos na necessidade de permanecer juntos nas lutas sociais. Supondo que o poder constituído e a rede telemática de informação não está completa ou que existem falhas na centralização dos dados a nível europeu ou mais além (não o sabemos mas imaginamo-lo), a monitorização e a fichagem que as forças policiais podem fazer aquando destes encontros gerais, não modifica substancialmente nada a respeito da nossa forma de fazer frente à luta, e que conste isto. Obviamente que isto não exclui que @s companheir@s devam estar atent@s e que tomem todos os cuidados para evitar descuidos de qualquer tipo. Isto não exclui possíveis tentativas criminalizantes de construir montagens que pretendem separar a nossa luta do social, separar a insurreição dos movimentos sociais reais, a nossa reacção não pode ser radicalizarmo-nos mais nestes movimentos mas ampliar ainda mais os nossos estímulos em sintonia com o que é pedido pelas lutas.

Doutro modo, possuindo eles a força material para fazer-nos desaparecer a tod@s, de uma forma ou de outra; um poder que se rege pelo consenso generalizado deve ter também o poder de gerir este desaparecimento face ao consenso em que se rege, força que evidentemente não tem, por agora, dado que optou pela estratégia de afastar-nos a nós e às nossas acções dos contextos reais da natureza social, que se manifestam como rupturas à estabilidade do sistema.

Constantino Cavalleri
Guasila - Sardenha, Novembro de 2000

»Contribuição para a luta contra a prisão