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A cela disciplinar
não existe em certos países da Europa vai para dezenas de anos.
O maior castigo aplicado ao recluso transgressor ou inadaptado ao regulamento
prisional é a transferência do mesmo para outra prisão.
Todavia, aqui no país dos brandos costumes (brandos, apenas em relação
à população reclusa entre muros ou fora de muros, porque,
outro tanto, não se dizer em relação aos juízes
e a todo o horroroso arsenal dos vários códigos infligidores
de martírios), as celas disciplinares, jaulas cruéis e sábias
na arte de castigar, encontram-se quase sempre cheias de carne humana, por
períodos de tempo que vão até trinta dias, para satisfação
do humanismo inquisitorial. Por vezes, há filas de reclusos à
espera que vazem as celas disciplinares para cumprirem os castigos que o arsenal
de horror da prática quotidiana da penalidade engendrou.
A cela disciplinar, designada pelos reclusos de "segredo" e de "manco",
é uma jaula lúgubre, insalubre, húmida, gelada de Inverno,
chão de cimento, sem mobiliário, sem ventilação
suficiente, sem suficiente luz do dia e a luz artificial é insuficiente
para os reclusos poderem ler e estudar. A cama é uma base de cimento
com um colchão de espuma por cima, o qual, fica todo encharcado de
suor depois de poucos dias por falta de ventilação por debaixo
do colchão. O único sítio para colocar a comida e a roupa
é no chão. O preso é obrigado a comer de pé, com
a marmita nas mãos, na cama ou no chão, igual aos animais. O
balde das fezes e urina é despejado de vinte e quatro em 24 horas.
Cela disciplinar, jaula dentro da jaula, a técnica de infligir suplícios
sem deixar marcas exteriores, a arte de reter a vida no sofrimento, subdividindo-a
em "mil mortes", com o poder punitivo a apossar-se do indivíduo
até às costuras da mente.
O recluso que é submetido neste espaço tempo 23 horas
ininterruptas por dia de jaula com uma hora de recreio por dia a céu
aberto, isolado de toda a população prisional -, num processo
de aniquilamento sensorial, sem poder falar com ninguém, a ter por
companhia pulgas e moscas, estas últimas atraídas pelo balde
dos dejectos e pela marmita da desnutrida e muitas vezes intragável
refeição, a falar para as paredes, emparedado em vida, entorpecido,
a definhar, num nível suficiente de vegetalização para
passar do purgatório ao limbo, que tortura física, psíquica
e moral não sofre?! Quantas perturbações psíquicas
e traumas não são originadas? Quanta violência institucionalizada!
Quanto terrorismo psicológico e físico! É o sistemático
e premeditado intento de aniquilamento físico, psíquico e da
personalidade e identidade do indivíduo. Quantos sentimentos de ódio
não são neste cruel castigo germinados?! Quantos desejos de
vingança não são alimentados?! "Alguém tem
de pagar por isto!
", é a expressão de vingança
constantemente ouvida no ambiente de agonia, degradante e de extermínio
das prisões. Depois, é ver-se os media a anunciar os actos de
delinquentes em obediência à política do alarmismo social,
a exigir penas mais duras, colada à liturgia dos suplícios proferida
pelos charlatães políticos, com visa à caça do
voto, mas sem analisar as causas dos referidos actos bem como sem questionar
quem fabricou esses delinquentes capazes de tais actos.
Prisões, celas disciplinares, a atrocidade da expiação,
os corpos e as mentes manipulados pelo horroroso arsenal dos castigos e do
poder da prisão em si, a opressão na sua máxima expressão,
o mundo carcerário, a sua brutalidade e a sua corrupção.
Martírio, dor, extermínio. Tanta crueldade, tanta desgraça,
afinal para quê? Para disciplinar? Ressocializar? Mas as estatísticas
da reincidência não são bem calaras? Jamais o chicote
da vingança serviu de panaceia para as maleitas sociais originadas
pela iníqua estrutura da sociedade baseada nas desigualdades sociais,
logo nos privilégios. Se não houvera privilégios não
haveria delitos!
"As prisões não impedem que se produzam actos anti-sociais.
Multiplicam o seu número. Não alcançam os seus fins.
Degradam (ainda mais) a sociedade que os gerou). Devem desaparecer."
À prisão contrapomos liberddade, igualdade social, fraternidade
e justiça social.
O sistema, à prisão, à cela disciplinar e a todo o restante
arsenal de castigos, designa de regime "humano". Ao desumano, chamam
de humano. Com efeito, outra coisa não se poderia esperar da insensibilidade
dos legisladores, perpetuadores das desigualdades sociais e dos privilégios
e, por conseguinte, do martírio aos despojados socialmente. Lembrar
a nova língua que já o George Orwell denunciava. Efectivamente,
à guerra, chamam paz; ao ódio, chamam amor; e à injustiça,
chamam justiça.
Que cinismo e irracionalidade evidenciam para a defesa dos seus interesses
conseguidos em detrimento dos produtores desses interesses!
Como se a barbárie da prisão não chegasse para causar
danos irreversíveis ao indivíduo quando, por sorte, este
consegue escapar ao extermínio a que se encontra submetido e
às suas famílias e amigos, vê-se ainda o recluso sujeito
aos abomináveis castigos da cela disciplinar, sem motivo justificado
face ao contemplado nos códigos, apenas por mero capricho dos funcionários
prisionais de elevada hierarquia. Trata-se, portanto, de castigos extra oficiais,
não codificados, Por exemplo, na Prisão de Vale de Judeus, os
reclusos protestam em carta aberta, contra os castigos em celas disciplinares
"a torto e a direito" (sic) e contra as suas desumanas condições.
Na prisão do Linhó, sobrelotada maioritariamente por jovens,
é retirado o colchão durante o dia ao recluso castigado em cela
disciplinar e é-lhe distribuído um cigarro depois de cada "refeição"
caso seja fumador. Nada desta aberração está codificada.
São, portanto, castigos secretos. Resquícios da outra opressão
a fascista. Na prisão de Pinheiro da Cruz, o recluso capturado
por não se ter apresentado de saída precária prolongada,
é castigado em cela disciplinar, cujo castigo normalmente nunca é
por menos de trinta dias de apodrecimento. Enterrado em vida, entre paredes
e tecto de cor branca (de cal), grades, porta de jaula fechada com enorme
cadeado e, como não chegasse, ainda com outra porta forrada a chapa
de ferro, trancada com dois ferrolhos e fechadura com várias voltas,
além de um outro gradão trancado a cadeado para evitar qualquer
contacto solidário por parte dos companheiros, quando o nº 4 do
artigo 53º do decreto-lei nº 49/80 de 22 de Março estipula:
"revogada a licença de saída prolongada, é descontado
no cumprimento da medida privativa de liberdade o tempo em que o recluso esteve
em liberdade e não poderá ser concedida nova saída sem
que decorra um ano sobre o ingresso do recluso em qualquer estabelecimento".
Portanto, qualquer castigo além do contemplado é pura prepotência.
Estas são apenas algumas das inumeráveis prepotências
ocorridas quotidianamente nas prisões - locais por excelência
do arbítrio sistemático. É a ficção do
estado de direito com a violência do castigo justo e proporcional!
A liberdade à sexualidade, a liberdade de associação
e expressão e a liberdade da inviolabilidade da correspondência,
não existe. É amordaça total. Não é por
acaso que o número de presos activistas não aumenta significativamente.
É que, os que rompem a mordaça, espera-lhes geralmente mais
anos de prisão. O medo e a chantagem impera nas prisões. As
represálias, por parte do sistema, são draconianas. É
a lei do silêncio da máfia estatal. O trabalho é escravidão.
As doenças e os contágios multiplicam-se a grande velocidade.
As mortes de reclusos aumentam. A política de extermínio continua.
Após milénios de opressão e de séculos de cerimonial
do castigo público;
Depois de inflamados discursos e declarações dos "Direitos
do Homem";
O massacre continua!
Punição não é solução!
Prisão? Abolição!
Amnistia total!
Manuel Oliveira
(sequestrado num centro de extermínio do democrático estado
português)