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"Sou um prisioneiro anarquista há 5 anos. O Tribunal de Segurança (DGM) de Malataya condenou-me a 15 anos de prisão porque não neguei a minha identidade e ideias anarquistas. Tive que lidar com todo o tipo de problemas. Na prisão de Malataya fui colocado num bloco dominado por prisioneiros Marxistas-Leninistas. No entanto, não fui aceite por eles. Foi-me dito que para ser aceite teria que ficar como um prisioneiros apolítico e não como anarquista. Apenas o PKK me aceitou mas com uma condição: não deveria falar com ninguém acerca do anarquismo. Embora me tenham deixado de tolerar pouco depois de eu ter negado essa condição. Foram mais moderados apenas porque no passado eu me tinha afirmado como um anarquista curdo. Se isso não tivesse acontecido, de certeza que, nunca me tiram tolerado. Não tive outra alternativa que não fosse pedir transferência para a prisão de Burdur. Havia mais 4 prisioneiros anarquistas na prisão de Burdur. Eram pessoas que se converteram ao anarquismo já depois de presas. Eles, como muitos outros anarquistas, têm um passado de esquerda. Nessa altura fui torturado. Tinha problemas em respirar, problemas no fígado, olhos e ouvidos. E o mais importante: tinha um grave trauma. Estava com problemas em respirar e, por vezes, desmaiava. Sugeri, aos meus comaradas anarquistas, que deveriamos pedir a transferência para um bloco que tivesse ar condicionado. Eles concordaram. Mas as autoridades prisionais rejeitaram o pedido. Foi-nos dito que contactasse-mos os representantes do Comité de Prisioneiros, que era controlado por organizações Marxistas-Leninistas. Expliquei-lhes esta questão. Durante esse tempo não pude ir ao médico por causa da detrioração da minha saúde. Falei, também, com representantes do MLKP (Partido Comunista, Marquista-Leninista) e o PKK e pedi-lhes ajuda. Eles ficaram chateados. Recusaram-se a ajudar-nos porque eramos anarquistas e não "revolucionários". Não nos viam como revolucionários. Disseram-nos para não causar problemas. Eu e os meus camaradas discutimos o problema entre nós. Decidimos pedir transferência para outra prisão onde não houvesse marxistas. Alguns dos meus companheiros aconselharam-me a ficar num dos blocos políticos até que minha saúde melhorasse. De início recusei mas depois fiquei preocupado porque desmaiava mais frequentemente. Decidi dizer isto aos representantes do Comité de Prisioneiros. O MLKP recusou-se, de imediato, a deixar-me ficar no seu bloco. O PKK deixou-me ficar mas com uma condição: eu teria que ser um cidadão "normal". Estava magoado e recusei. Entretanto, algumas das pessoas que nos vinham do exterior para nos visitar eram mandadas embora pelo Comité de Prisioneiros. A razão era o facto de não sermos "revolucionários". (...) Fomos transferidos para lugares diferentes... Fui enviado para a prisão de Konya/Ermenek. Vivi lá cerca de 2 anos. Durante algum tempo estive com os Trotskistas, porque eles também eram rejeitados e tratados como nós pelo Comité de Prisioneiros. Finalmente percebi como é difícil viver com os Marxistas. A minha aprendizagem política ensinou-mo. A minha saúde estava em risco se eu continuasse na solitária. Fui enviado para o hospital Ankara Numune e fui operado. Contudo não puderam fazer nada relativamente às minhas constantes dores de cabeça e o meu problemas nos ouvidos.


Como podem ver a pena por ser anarquistas é muito severa. É-se confrontado com todo o tipo de problemas. Penso que isto é algo com que os anarquistas têm que contar. Espero que esta carta ajude a perceber quais as condições que os anarquistas enfrentam nas prisões turcas."

»Carta de um preso anarquista turco