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É o momento
de retomar uma proposta que foi lançada há algum tempo a partir
de uma prisão do estado espanhol e que cremos ser de vital importância
nestes momentos: o encontro entre toda a gente familiar e próxima dos
companheiros presos que estão a lutar.
Desde finais do ano de 1999, presos do regime de isolamento FIES (Fichero
de Internos de Especial Seguimiento, um sistema de "vida" no interior
das prisões no qual os presos se mantém sós e isolados
em módulos especiais entre 20 e 22 horas na cela por dia, com as comunicações
com o exterior totalmente controladas e censuradas, sem contacto com os guardas
prisionais para reduzir a possibilidade de motins ou sequestros, submetidos
a maltratos físicos e a insultos de todo o género continuamente)
têm vindo a protestar com o objectivo de conseguir umas reivindicações
que, longe de serem utópicas ou loucas, são simplesmente "direitos"
que a mesma lei concede e que são sistematicamente violados. A única
coisa que conseguiram neste tempo todo foram mais torturas, uma publicidade
infame em jornais e revistas de actualidade e a manutenção das
suas condições de vida ao mesmo nível de antes.
Porque cremos necessário este encontro?
Pensamos que as estruturas actuais que lutam contra as prisões não
avançam. Carentes de imaginação e de continuidade, não
foram capazes de criar as condições para uma mobilização
contínua e contundente. Há que ter em conta que a luta é
dura. Estamos a protestar contra o mais sólido pilar que o Estado de
Direito possui para garantir o respeito da população: a prisão.
A prisão é a ameaça que nos colocam à frente,
como excluídos, para evitar que protestemos contra um sistema que a
cada dia nos demonstra que, contrariamente ao que dizem, se governa de cima
para baixo. Obrigam-nos a viver em bairros-gueto, na melhor das hipóteses,
quando não em barracas, submetidos a um controlo exagerado e a uma
repressão policial que se alimenta continuamente, que nos golpeia sem
motivos ou por questões nímias, que dispara pelas costas ao
menor gesto estranho. É uma realidade que é quotidiana. Não
ter dinheiro, estar no desemprego, ser de outra etnia ou raça, não
ter documentos de identidade, são crimes pelos que pagamos um alto
preço. O racismo e a prepotência estão na ordem do dia.
Dizem-nos que todos temos as mesmas oportunidades, que se pisarmos a cabeça
do vizinho podemos ser como eles, viver uma vida tranquila sem estar continuamente
a ser acossados por energúmenos de uniforme.
Assassinam-nos com as suas drogas, as que levam à prisão a maior
parte das pessoas. Como explicar que as drogas são introduzidas no
estado por mafias policiais instaladas nas fronteiras? Porquê só
os consumidores e pequenos traficantes pisam uma e outra vez as prisões
e não o fazem todos aqueles que têm dinheiro para se safarem
sem delinquir, ou os grandes traficantes cúmplices da polícia?
Quem não se apercebe de que a droga legal e ilegal é uma das
maiores fontes de receitas do Estado? Quem pode pôr em dúvida
que é a pobreza e não a droga que leva as pessoas para a prisão?
Para justificar a existência das prisões, dizem-nos que estas
são necessárias para isolar os psicopatas ou violadores, os
que cometem actos anti-sociais, para tratá-los e reinseri-los em prol
do bem comum. Mas, como se explica então que os violadores e demais
sejam precisamente os de "confiança" dos guardas prisionais
e que, para o resto dos presos, o "tratamento" consista em administrar
metadona indiscriminadamente? Que tipo de reinserção praticam,
torturando e isolando os que protestam e premiando os que denunciam os seus
próprios companheiros? Não, as prisões não são
necessárias, não constituem nenhuma alternativa, nem tampouco
reinserem. Eles mesmo reconhecem que a maioria dos presos reincide várias
vezes, que as prisões são fábricas de "delinquentes",
onde as bondades anunciadas na Constituição e no regulamento
penitenciário se esfumam para dar lugar à realidade. Uma realidade
que nos diz que devemos olhar para a rua, donde provêm as pessoas presas,
para nos darmos conta do porquê de acontecer o que acontece.
Lutar contra a prisão é lutar contra o sistema que cria pobreza
para muitos e opulência para uns poucos e o preço a pagar é
alto: ser rotulado de terrorista, subversivo, anti-sistema, carecendo de importância
o facto de quem ser assim classificado não ter ideais políticos
ou mal saiba ler. Terroristas somos todos os que estamos fartos de aguentar
uma situação de abuso insustentável e que decidimos abrir
a boca para gritar.
Cremos que sozinhos não poderemos lutar contra este monstro chamado
democracia e que necessitamos da coordenação do esforço
colectivo de todos os que nos solidarizamos com os nossos. Eles são
um bravo exemplo de unidade, sob as duras condições do seu encarceramento.
A batalha é longa, temos de ser conscientes disso e é urgente
e necessário reforçar o apoio e a acção de todos
os que dizemos BASTA!
Encontrarmo-nos pode ser o começo do caminho. Discutir e apresentar
propostas sobre o que podemos fazer na rua para parar a repressão e
avançar nas reivindicações para melhorar o nível
de vida dos nossos companheiros presos. É urgente. Não podemos
esperar mais.
Tomemos como exemplo outras lutas que tiveram lugar no passado, como as da
COPEL e dos comités de apoio. As lutas de ontem são as de hoje,
porque apesar de passar o tempo as condições prisionais não
são muito diferentes. De facto, a Ley Orgánica General Penitenciaria
foi então aprovada e sob o seu jugo a repressão liquidou a luta
dos presos e sob o mesmo jugo hoje liquidam os nossos companheiros. Actualmente
a população reclusa superou o número de mais de 50.000;
muitas das reivindicações de então continuam vivas hoje
porque ainda não foram satisfeitas; o Estado está a optar pela
via claramente repressiva, construindo mais macro-prisões de máxima
segurança como resposta à massificação e ao sempre
crescente aumento da população presa; apesar das sentenças
que declararam a inconstitucionalidade do regime FIES, este continua a existir
e foi "legalizado" mediante circulares internas em 1996.
O único caminho é a mobilização e a acção.
Muitas são as exigências, dentro e fora: Para quando um sistema
de comunicação com as actuais macro-prisões que não
nos faça esperar horas por autocarros, comboios, ou ter que pagar caros
taxis, para visitas de tão só 45 minutos? Para quando a libertação
dos doentes terminais? Porque não organizar caixas de resistência
para todos aqueles que dispõem de escassos recursos?
Está na nossa mão.
Contactos:
Madrid: apartado
de correos 156072 / 28080 Madrid
Barcelona: apartado de correos 10007 / 08080 Barcelona . Telefone: 660280194
(tradução
do texto Ahora es el momento: los circulos de familiares y amigos publicado
em Cofre de vientos contra la cárcel y la repressión
anexos junio del 2002)