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(Su Gazetinu nº 0)
O texto que de seguida reproduzimos fez-se circular nas últimas semanas, de forma informal, em determinadas e restritas situações, à espera que o instrumento editorial projectado se levasse a cabo. Isto representa uma espécie de papel das tentativas dos grupos que, entre outras coisas, estão a organizar debates públicos e manifestações em diversas cidades sardas.
Na Sardenha demos
vida a grupos de luta contra as prisões e esta primeira saída
pública pretende socializar, entre @s pres@s, os seus familiares e
em todo o social, um mínimo de projectualidade operativa que clarifique
as coordenadas sobre as quais articulará a sua participação.
O ponto de partida sobre o qual todos coincidimos é que a prisão,
juntamente com outras formas de controlo e repressão, não é
mais do que o reflexo de uma sociedade corrompida, contraditória, dilacerante
e sustentada por um poder político-económico-ideológico,
que se apoia num sistema garante de injustiças e substancialmente baseado
na exploração da maioria em benefício de uma restrita
elite em determinadas áreas do mundo e da sociedade.
Portanto, a luta contra a prisão, contra cada forma do carcerário,
assim como contra cada forma de repressão e controlo, é para
nós a luta contra o íntegro sistema social vigente, sustentado
pela alienação e exploração.
Da mesma forma que não acreditamos na possibilidade de um sistema baseado
no domínio do homem pelo homem e sobre a natureza no seu conjunto reconhecer
a liberdade de cada indivíduo singular e das comunidades humanas específicas,
de determinar-se em autonomia, tampouco acreditamos que a prisão possa
representar (eventualmente "melhorada") uma instituição
que assuma papéis positivos para os indivíduos e para o corpo
social.
A prisão - como qualquer forma de repressão - é o tipo
de instrumento para encerrar, corrigir e, se necessário, isolar da
sociedade pessoas consideradas, injustamente ou com razão, delinquentes,
criminosas, não respeitosas para com as leis em vigor.
Mas estas leis, que são impostas a todos, nem por todos foram elaboradas
e aprovadas; só uma ínfima minoria de indivíduos têm
a mesma possibilidade de elaborá-las e de impô-las depois a todos,
fazendo uso de instituições e homens submetidos ao mesmo objectivo
(funcionários, magistrados, esbirros), com frequência explicitamente
armados.
Os que não têm semelhante possibilidade ou tantos quantos não
possuem ainda assim a capacidade ou vontade para elaborar leis válidas
inclusive também para outros, porquê deveriam respeitar as leis?
Não altera nada o facto de que as leis sejam elaboradas por poucas
pessoas eleitas em pleno regime democrático. Não é por
uma parte da população, mais ou menos numericamente consistente,
decidir renunciar à sua própria autonomia e independência,
colocando a própria existência nas mãos de outros (os
eleitos), que desaparecem as contradições económico-sociais
de fundo e ganham valor as leis feitas por uns poucos e impostas a todos!!
De qualquer forma, seja mais ou menos democrático o regime, uma sociedade
que se rege pela redução de completos estratos sociais a EXCLUÍDOS
de uma existência digna, ou que pretende para amplas massas proletárias
a escravidão diária de um trabalho cada vez mais alienante e
embrutecido, para além de degradante, ou que impõe respeito
e ordem apenas a favor dos privilegiados, dos poderosos e dos que estão
ao serviço destes e dos seus interesses. Uma sociedade assim não
é um sistema que possamos nem queiramos respeitar. Quiçá
não se conseguirá destruir definitivamente, mas é nossa
intenção tentá-lo, atacando-o em todos os seus aspectos
e manifestações como temos feito até hoje.
Uma sociedade assim não pode senão produzir descontentes - como
nós -, dissidentes - como muitos de nós -, excluídos
do gozo de uma vida digna - como muitíssimos - e obrigar os indivíduos
refractários ao recrutamento no trabalho negro ou legal e, portanto,
sujeitos a "delinquir".
E é essa mesma sociedade que origina tensões e repressões
individuais e colectivas que amiúde degeneram em comportamentos, acções,
factos ensanguentados que atingem pessoas, famílias, comunidades, populações
inteiras a quem foi expropriada toda a capacidade de auto-controlo e auto-regulação.
Enquanto que o capital (agora multinacional e informatizado), por meio dos
estados que representam os seus apêndices territoriais, fomenta guerras
destrutivas como a história nunca tinha conhecido, matando comunidades
inteiras em cada canto do planeta que esteja fora da ordem social estabelecida
e da legalidade gerada pelo domínio, as camadas da população
mais débeis, mais marginalizadas, privadas de toda a satisfação
da vida, que suplicam e instam desde os confins dos estados aos estratos sociais
assimilados pelo sistema vigente, gerando guerras entre miseráveis
que o governo alimenta ainda mais com o fim de aterrorizar a sociedade inteira
e obrigá-la a ceder às medidas de controlo e repressão
cada vez mais desumanizantes e inaceitáveis.
Um sistema que não aceita sucumbir em absoluto, mas que tende a perpetuar-se
por meio do que o alimenta e disso retira benefício e poder. É
para que se garanta um mínimo de estabilidade, de consenso (forçado
e "voluntário") que instituiu a prisão, as mil formas
de repressão na sociedade, as mil condenações comportamentais
e psicológicas, os manicómios verdadeiros e virtuais, nos quais
se isola, tortura, separa os dissidentes, os refractários, os "desgraçados",
numa palavra, os Rebeldes Sociais.
A prisão, portanto, como apêndice sistemático e irrenunciável
para o sistema vigente, reflecte, com frequência amplificadas, as porcarias
existentes mais além dos seus muros. Serve frequentemente de laboratório
de ensaio para novas e mais avançadas formas de manipulação
comportamental e psicológica, de repressão e controlo.
É por isto que a luta contra a prisão é, ao mesmo tempo,
a luta contra esta sociedade do domínio, e vice-versa, a luta contra
este regime não pode senão ser a luta pela destruição
das prisões.
No entanto, não queremos ter ilusões nem veleidades. E ainda
menos ser "humanitaristas" que, não sabendo fazer outra coisa
para aliviar a própria consciência que se levanta contra o existente,
em vez de empunhar as armas necessárias para a luta pela destruição
do sistema, fazem obra de consolo, de alívio das tensões, reduzindo-se
amiúde a pacificadores de almas desiludidas ou caídas em desgraça.
Não somos bombeiros e recusamos qualquer função de amaciamento,
de pacificação. Não nos consideramos tampouco uma entidade
colectiva em "solidariedade" com outros, por presos ou livres que
estes sejam.
Não porque recusemos a solidariedade, mas porque não a consideramos
suficiente em si mesma para satisfazer as nossas tensões e as alheias,
e também porque avaliamos a solidariedade como manifestação
concreta, real, material das lutas, das batalhas, dos protestos de tod@s aquel@s
que se contrapõem realmente ao existente com o fim de destrui-lo definitivamente,
ou, pelo menos, de arrancar-lhe condições melhores de existência.
Por outro lado, recusamos qualquer papel e hipótese vanguardista e
sim aspiramos a destruir as prisões juntamente com o sistema que as
gera e sustém. Desejamos fazê-lo em conjunto com aquel@s que,
activando-se em torno das lutas, se colocam em jogo a si mesmos na primeira
pessoa, assim como nós, renunciando a delegar e aos papéis de
representação, simplesmente participando na luta segundo as
suas tensões, especificidades, possibilidades e capacidades.
Não temos ilusões, nem veleidades, porque somos perfeitamente
conscientes de que não possuímos, por nós mesmos, nem
a força nem a capacidade de destruir as bases da sociedade que nos
domina.
Não somos grupos "de solidariedade", portanto, com a luta
dos outros, por presos ou livres que sejam.
Não somos grupos de solidariedade mas de luta; grupos que levam avante
uma luta que é A MESMA LUTA, para além de ser a luta de tod@s
aquel@s que participam nela dentro e fora de muros. É esta a solidariedade
real que manifestámos no passado e é esta a única forma
de solidariedade que concebemos hoje.
Somos conscientes também de outro facto: que só a luta, ou seja,
a guerra constante, pode de forma projectual dar resultados positivos, por
pequenos que sejam.
E lutar quer dizer, precisamente, colocarmo-nos em jogo na primeira pessoa,
enfrentar riscos numerosas vezes, muitas vezes sacrifícios, colocar
também em risco essas migalhas de certeza e "privilégios"
que cada um de nós faz questão de possuir para evitar o suicídio.
Lutar portanto arriscando na primeira pessoa, não nas lutas de outro,
mas nas nossas próprias lutas.
Se não acreditássemos nessa luta contra as prisões, uma
LUTA TAMBÉM NOSSA, não estaríamos dispost@s a arriscar
nada, não tanto a nossa liberdade, mas a própria existência.
Acreditamos igualmente que esta luta é também nossa, pelo mesmo
motivo que a intensificação do regime repressivo na prisão
corresponde a um reforço do poder instituído e, consequentemente,
a uma posterior restrição do social em geral.
Cada torturado na prisão tem uma componente no social e vice-versa:
um pêndulo brutal ao qual corresponde apenas um reforço do regime
de escravidão dentro e fora das prisões.
A consciência de não possuir alternativa à luta levada
adiante na primeira pessoa não nos faz desistir. Tampouco enterramos
as nossas intenções face à consciência da apenas
PROVÁVEL, portanto incerta, AQUISIÇÃO da força
necessária para destruir definitivamente as prisões e a sociedade
que as gera e renova.
Consideramos possível, em qualquer caso, a aquisição
de uma força capaz de IMPOR AO PODER CONSTITUÍDO alguns objectivos
particulares que representem maior espaço de liberdade para @s pres@s
e para tod@s os que não o são.
Mas para impor estes objectivos particulares, verdadeiramente mínimos
frente à exigência de liberdade total, cremos que a luta não
pode ser de retaguarda, de resposta: deve tratar-se de ataque, ou seja, de
iniciativa nossa, d@s livres, d@s pres@s, d@s familiares.
Uma luta que parta de tod@s nós e que esteja nas nossas mãos,
que se articule livremente adaptando-se às tensões e às
vontades de cada um(a), mas que tenha a possibilidade de sintonização,
pelo menos naqueles momentos em que a sua explicação requeira
concentração de tentativas e força capaz de impor ao
poder constituído os objectivos preestabelecidos.
Deve, além do mais, tratar-se de uma luta aberta à possibilidade
de alargar-se, de envolver tanta mais gente quanto seja possível, dentro
e fora das prisões, de ligar-se a outras lutas similares, a outras
situações análogas.
Este não é o momento para grandes análises (que eventualmente
podem efectuar-se sempre em momentos mais oportunos), mas sim o momento em
que, no social, o poder do estado-capital, os gânglios do domínio
social e político se alargaram no plano internacional. E acontece serem
momentos em que, catalizando-se os interesses do capital mundial, cremos ter
isolado algumas áreas, na Europa, onde a luta poderia articular-se
de forma ampla.
Nas prisões do estado espanhol, está em marcha, desde finais
de 1999, uma luta que, difundida no social, procura a abolição
do regime de isolamento especial (FIES), a libertação dos doentes
crónicos, o fim da dispersão das pessoas presas, ou seja, da
sua transferência para lugares distantes da sua própria terra
ou da prisão na qual se criaram espaços de socialização,
de estudo, de simpatia, de convivência pacífica entre presos.
Nós acreditamos que nas prisões e na sociedade
do estado italiano, em particular na Sardenha, há condições
similares pelas quais é possível dar saída a uma luta
com objectivos análogos. Sobretudo no momento em que depois
das vagas de protestos que as administrações prisionais e os
meios de comunicação tentaram ocultar no ano passado e de continuarem
os brutais espancamentos de reclusos na prisão de S. Sebastiano em
Sassari o poder político não se dispõe a melhorar
as condições d@s pres@s, mas a aumentar a repressão,
o controlo, as medidas inumanas já vigentes nas prisões.
É destes dias, com efeito, a notícia do aumento das restrições
para @s pres@s e do número de guardas prisionais, além do mais,
em dois anos, com a discrição da direcção penitenciária,
da prorrogação do art. 41 e da sua aplicação para
delitos não previstos anteriormente, da construção de
novas prisões em que enterrar os que não considerem válido
adaptarem-se às restrições e prepotência impostas
pelo regime vigente de domínio.
É nossa
intenção dar início a uma luta sistemática de
oposição a este projecto repressivo e que se coloquem como objectivos
imediatos, entre outros que se queiram propor:
A abolição dos regimes especiais de detenção ou
isolamento.
A libertação dos doentes crónicos ou incuráveis.
O fim da dispersão e a aplicação, para os que a requeiram,
da regionalização da pena.
Não somos unicamente nós @s que entendemos nestes objectivos
a obtenção de melhores condições de vivência
nas prisões e, sobretudo, uma maior possibilidade de comunicação
entre o interno e o externo das prisões, para assim evitar que matanças
como a de S. Sebastiano permaneçam impunes ou que morram no silêncio
decretado pelos media, ministérios, direcções prisionais.
Estamos a mobilizar-nos há algum tempo para contactar toda uma série
de situações, na Sardenha e noutros lugares, para que a luta
se ramifique por todas as partes e se envolva, no social e nas prisões,
quanto mais gente melhor. Quanto antes daremos vida a um instrumento editorial
específico, que sirva para dar a conhecer a evolução
da luta por qualquer lado.
Há por todos os lados tensões, situações que manifestam
vivo interesse, condições óptimas que devem encontrar
confrontação num início de luta, possivelmente em sintonia
dentro e fora das prisões.
@s pres@s, seus familiares, tod@s @s interessad@s podem fazer circular à
sua maneira este texto, manifestar considerações próprias,
críticas, propostas, para as direcções que aparecem de
seguida, expressar, por escrito ou por meio de familiares e conhecidos, a
mesma intenção de participar ou dar saída à forma
de protesto que cada um será livre de escolher.
Obviamente, esperamos que @s pres@s também, mais além das suas
posições pessoais, expressem o que consideram válido
sobre as suas situações, condições nas prisões
de cada um, as tensões que existem, o interesse que suscita nos pres@s
a seguinte proposta, etc..
De momento, os
endereços aos quais podeis fazer chegar os escritos, considerações,
propostas, críticas, etc. são:
1) Constantino Cavalleri Via M. Melas nº 24 09040 GUSALIA
(CA) Tel: 0349 6419847
2) Rita Piga Via Buonnarroti nº 2 08001 NUORO Tel:
0339 1262579
2) Antonello NUORO Tel: 0339 1263478
Os companheiros estão dispostos para encontros com familiares, pres@s, quem esteja interessad@ na luta, para discutir e avaliar em conjunto as possíveis acções comuns válidas para difundir socialmente os interesses pelas problemáticas ligadas às prisões, à repressão dentro e fora das prisões, às mil formas como o controlo se manifesta.
(Traduzido a
partir da versão castelhana publicada em Cofre de vientos contra
la cárcel y la repressión anexos junio del 2002)