Cruz Negra Anarquista - Almada - Apartado 40 / 2801-801 Almada / Portugal - cna_almada@yahoo.com

 

"Vives" na apatia, na indiferença, na mesquinhez, na humilhação, nos mexericos, nas lamúrias, no queixume, no desabafo, na tagarelice e na maledicência. "Vives" na lama da falsidade, da bajulice, da hipocrisia, no dizer mal nas costas, no cortar da casaca, na traição ao virar das costas. Dás o dito pelo não dito quando és confrontado. Passas a "vida", a sub-vida, na submissão, a rastejar como cobras, a andar de joelhos, na subserviência. És sublime na servidão. Tens vaidade de ser lacaio. Até fazes de faxina dos teus companheiros. Sujeitas-te à escravidão. Deixas-te degradar pelo sistema. Absorves a subcultura carcerária até à bainha da mente. Desbaratas as energias em bagatelas e na alienação da narcotizante propaganda do sistema; na alienação da televangelização dos germes do domínio e do charlatão discurso do sistema. Pensas como eles (sistema). Tens o discurso deles. Tens os pontos de vista deles. Tens os valores deles. És o centro do poder e não o marginal do poder. És produto e produtor do sistema. Pensas pela cabeça deles. Fazes o jogo deles. Tens o polícia na cabeça, és o reflexo deles. Submetido à cultura secular do domínio, sobrevives com o desejo de vir também a mandar. O teu imaginário é querer ser como eles. Tens hoje o chicote em cima, mas sonhas em chicotear os demais amanhã. Quando te dão uma chave de um armazém, das latrinas, do bar, da escola, da enfermaria, da biblioteca, tornas-te soberbo, arrogante, déspota e polícia. Reproduzes constantemente o sistema. Até pareces um clone do sistema. Vendes-te. Cedes à chantagem deles. Deixas-te transformar em bufo. Abanam-te a cenoura – as designadas medidas de flexibilidade de pena (precárias, RAVI, RAVE, liberdade condicional) – à frente dos teus olhos, em troca da perda da tua dignidade. Propõem-te que colabores com eles. Aceitas. Passas a fazer de polícia dos teus companheiros. Deixas-te manipular, corromper e instrumentalizar por eles. Fazem de ti uma marioneta. Passas a exercer poder sobre os teus companheiros. Veiculas os boatos que a direcção da administração do teu extermínio quer. Fazes de correia de transmissão. Chibas o que vês e o que não vês. Inventas chibadelas. Fazes competição na delação. Tens presunção de ser delator. E pretendes ser o maior dos delatores. Chibatão! Vanglorias-te "viver" nessa abjecção. És tu que fazes o grande controlo da prisão. Dás pareceres à direcção da administração do extermínio sobre se o companheiro x ou y merece ou não as medidas de flexibilidade. És um nojo!…

E mesmo quando não és chibato, tens posturas que só favorecem o sistema, pois, criticas destrutivamente os companheiros activistas, que, corajosamente denunciam a prepotência e as monstruosidades do sistema, revelando, por vezes, ideias próprias de inquisidor.
A tipos como tu, que não são chibos, mas que pensam como (e pior que) o sistema, o falecido e estimado companheiro Juvenal chamava-lhes "cabeças partidas".

É verdade, não haja dúvidas, és um "cabeça partida". Não denuncias o sistema e tampouco as suas monstruosidades. Estás revoltado, mas não fazes nada, mas passas a vida a chafurdar na maledicência sobre os companheiros activistas que lutam contra as monstruosidades praticadas pelo sistema e por condições que tornariam a vida menos cruel na prisão. Até dá a ideia de que trabalhas para o sistema. Porém, quando os frutos dessa criticada luta aparecem, geralmente és logo o primeiro a querer beneficiar dessas melhorias, esquecendo ou desconhecendo que as mesmas se devem a esses activistas.

Com a tua postura reaccionária, retrógrada, imbecil, não fazes mais do que ajudar a perpetuar o sistema.

Quando deixarás de pensar pela cabeça deles? Quando deixarás de ver os problemas sociais pelos olhos deles? Quando deixarás de pensar que nada podes fazer? Onde está a tua dignidade? Ainda não viste que transportas o inimigo na tua cabeça? Ainda não viste que o teu inimigo são as ideias autoritárias que tens na cabeça e que nos fazem a vida negra? Não vês que és cúmplice do sistema? Não vês que estás colonizado no pensamento? É urgentíssimo que faças a tua descolonização mental.

Exorto-te à reflexão, a que penses pela tua própria cabeça, a que sejas tu próprio, à defesa da dignidade do indivíduo, da dignidade humana.

Resistência à degradação!

Desde as enxovias do poder,
Abril 99
José Alberto

»Carta aberta aos "clones" do sistema